Você está correndo, começa a encontrar um ritmo confortável e, de repente, sente o músculo endurecer. A panturrilha trava, a dor aparece rapidamente e parece impossível continuar dando os próximos passos.
A cãibra na corrida é uma contração muscular involuntária, repentina e dolorosa. Ela pode surgir durante o treino, perto do final de uma prova ou até pouco depois de você parar. Apesar de ser bastante desconfortável, na maioria das vezes ela melhora em poucos minutos.
É comum ouvir que toda cãibra acontece por falta de água, potássio ou magnésio. Mas a explicação não é tão simples. As evidências atuais indicam que as cãibras associadas ao exercício podem surgir pela combinação de diferentes fatores, principalmente fadiga muscular, intensidade acima do habitual, preparo insuficiente e, em algumas situações, alterações na hidratação e na reposição de sais minerais.
Por que a cãibra aparece durante a corrida?
Não existe uma única causa que explique todas as cãibras.
Uma das principais hipóteses é que o músculo cansado passa a receber sinais desregulados do sistema nervoso. Isso favorece uma contração intensa que o corpo encontra dificuldade para relaxar. Esse mecanismo é chamado de alteração do controle neuromuscular, mas, na prática, significa que o músculo foi exigido além do que estava preparado para suportar naquele momento.
Por isso, a cãibra costuma aparecer:
No fim de treinos mais longos.
Em subidas ou percursos diferentes.
Quando a pessoa corre mais rápido do que está acostumada.
Ao aumentar repentinamente a distância.
Durante provas em que o ritmo inicial foi mais intenso.
Quando o fortalecimento e o condicionamento ainda não acompanham o esforço.
Uma pesquisa com participantes de uma prova de triatlo de longa distância encontrou associação entre cãibras, histórico anterior do problema e velocidades de corrida mais altas. Nesse estudo, alterações na hidratação e no sódio do sangue não explicaram sozinhas os episódios.
Isso não significa que a hidratação não importe. Em treinos longos, dias muito quentes ou situações de suor intenso, perder grande quantidade de água e sódio pode contribuir para o problema em algumas pessoas. O mais correto é entender a cãibra como algo multifatorial: fadiga, intensidade, condições ambientais, hidratação e características individuais podem atuar juntas.
O que fazer quando a cãibra surgir?
O primeiro cuidado é diminuir o ritmo e parar em um local seguro. Não tente continuar correndo com o músculo travado, porque isso pode alterar seus movimentos e aumentar o risco de queda ou de outra dor.
Depois, experimente:
Relaxe e respire devagar.
A dor pode assustar, mas tente não puxar ou sacudir o músculo de forma brusca.Alongue suavemente o músculo afetado.
O alongamento estático leve é uma das medidas mais recomendadas para aliviar uma cãibra aguda. Mantenha a posição sem forçar até sentir o músculo começar a relaxar.Faça uma massagem leve.
Depois que a contração diminuir, massagear delicadamente a região pode ajudar a reduzir a sensação de rigidez.Caminhe alguns passos.
Quando a dor passar, teste o músculo caminhando devagar. Não retome imediatamente o mesmo ritmo.Avalie se realmente vale continuar.
Caso o músculo permaneça dolorido, endurecido ou volte a travar, o mais seguro é encerrar o treino.
Parar naquele dia não apaga sua evolução. Às vezes, cuidar do corpo é justamente o que permite voltar amanhã.
Tomar água ou comer banana resolve?
Água e alimentação são importantes para o funcionamento muscular, mas não existe um alimento capaz de interromper imediatamente todas as cãibras.
A banana fornece carboidratos e potássio e pode fazer parte de uma alimentação equilibrada. Porém, comer uma banana durante a cãibra provavelmente não elevará o potássio do organismo com rapidez suficiente para explicar um alívio imediato.
Da mesma forma, tomar magnésio por conta própria não garante que as cãibras desaparecerão. Suplementos podem ser úteis quando existe deficiência ou uma indicação individual, mas não substituem alimentação adequada, progressão de treino, fortalecimento, descanso e hidratação.
Antes de usar suplementos ou bebidas com eletrólitos todos os dias, converse com um nutricionista ou médico. Nem toda corrida exige reposição especial, e o excesso de determinados minerais também pode trazer riscos.
Como diminuir a chance de ter cãibra na corrida?
Nenhuma estratégia consegue garantir que a cãibra nunca aparecerá. Ainda assim, alguns cuidados podem reduzir o risco.
Aumente o treino aos poucos
Evite aumentar distância, velocidade e quantidade de subidas ao mesmo tempo. O músculo precisa de algumas semanas para se adaptar a um esforço novo.
Controle o ritmo no começo
Muitas cãibras aparecem no final porque o início foi mais rápido do que o corpo conseguia sustentar. Comece em um ritmo no qual ainda consiga falar algumas palavras sem ficar completamente sem ar.
Fortaleça os músculos mais exigidos
Panturrilhas, coxas, glúteos e músculos do tronco ajudam a sustentar o movimento da corrida. Um programa de fortalecimento orientado pode preparar essas regiões para suportar melhor a fadiga.
Respeite o descanso
Treinar com os músculos ainda muito cansados pode aumentar a chance de desconfortos. Sono, alimentação e dias de recuperação também fazem parte da evolução.
Organize a hidratação
Comece o treino bem hidratado e beba líquidos de acordo com a sede, o clima, a duração da corrida e sua quantidade de suor. Em atividades longas, calor intenso ou suor muito salgado, uma estratégia individual de reposição de líquidos e eletrólitos pode ser necessária.
Evite tanto a desidratação quanto o consumo exagerado de água. Não existe uma quantidade única que funcione para todas as pessoas.
Um checklist para observar no próximo treino
Caso você tenha cãibras com frequência, anote:
Em qual quilômetro elas aparecem.
Qual músculo costuma travar.
Se o percurso tinha mais subidas.
Se você correu mais rápido que o habitual.
Como estava o clima.
Quanto tempo durou o treino.
Como estavam seu sono e sua recuperação.
Se havia aumentado recentemente o volume ou a intensidade.
Quanto havia bebido e se estava com muita sede.
Essas informações ajudam a identificar padrões. Às vezes, o principal ajuste não está em um suplemento, mas em começar mais devagar, fortalecer uma região ou progredir o treino com mais calma.
Quando procurar avaliação profissional?
Uma cãibra ocasional após um esforço diferente pode acontecer. Porém, procure avaliação médica ou fisioterapêutica quando as cãibras:
Acontecem com muita frequência.
Surgem mesmo em repouso.
Não melhoram após interromper o exercício.
Vêm acompanhadas de inchaço intenso.
Causam perda de força ou dificuldade para caminhar.
Atingem várias regiões do corpo.
Aparecem junto com tontura, confusão, desmaio ou fraqueza intensa.
Começaram após o uso de um medicamento.
Persistem mesmo depois de ajustes no treino e na recuperação.
Dor forte no peito, falta de ar fora do habitual, desmaio ou alteração importante do estado geral exigem atendimento imediato.
O importante é entender os sinais do corpo
A cãibra na corrida não significa automaticamente que você não está preparado para correr. Muitas vezes, ela apenas mostra que aquele músculo chegou ao limite do esforço que conseguia sustentar naquele dia.
Em vez de procurar uma solução milagrosa, observe o conjunto: ritmo, distância, fortalecimento, descanso, calor, suor, hidratação e alimentação.
Seu corpo não precisa acertar tudo no primeiro treino. Ajuste o que for necessário, avance aos poucos e respeite os dias em que descansar é a melhor escolha.
Constância vence intensidade. Um km por vez.
Já teve uma cãibra no meio da corrida? Conte nos comentários em qual momento ela costuma aparecer.
Referências
Miller KC, McDermott BP, Yeargin SW, Fiol A, Schwellnus MP. An Evidence-Based Review of the Pathophysiology, Treatment, and Prevention of Exercise-Associated Muscle Cramps. Journal of Athletic Training. 2022.
Maughan RJ, Shirreffs SM. Muscle Cramping During Exercise: Causes, Solutions, and Questions Remaining. Sports Medicine. 2019.
Schwellnus MP et al. Increased Running Speed and Previous Cramps Rather Than Dehydration or Serum Sodium Changes Predict Exercise-Associated Muscle Cramping. British Journal of Sports Medicine. 2011.
Evers-Smith JW et al. Does Prophylactic Stretching Reduce the Occurrence of Exercise-Associated Muscle Cramps? Journal of Sport Rehabilitation. 2023.
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