Você começou a correr, passou a acompanhar os dados do relógio e percebeu uma coisa curiosa: seu coração está batendo menos vezes por minuto quando você está parado.
Antes eram 70 batimentos. Depois de alguns meses de treino, aparecem 62, 58 ou até valores menores.
Será que isso é normal?
Em muitas pessoas que praticam corrida e outros exercícios aeróbicos regularmente, sim. Uma frequência cardíaca de repouso mais baixa pode ser uma das adaptações do organismo ao treinamento.
Mas isso não significa que quanto menor, melhor. E também não significa que todo corredor precisa ter um batimento baixo.
Vamos entender o que acontece.
Primeiro: o que é frequência cardíaca de repouso?
Frequência cardíaca é simplesmente quantas vezes o coração bate em um minuto.
Quando falamos em frequência cardíaca de repouso, estamos falando dessa medida quando você está tranquilo, sem fazer esforço.
Para a maioria dos adultos, valores entre aproximadamente 60 e 100 batimentos por minuto são considerados dentro de uma faixa habitual. Pessoas fisicamente ativas, porém, podem apresentar valores menores. A American Heart Association informa que alguns atletas podem chegar perto de 40 batimentos por minuto em repouso sem que isso necessariamente represente um problema.
O número, sozinho, não conta toda a história.
Sono, estresse, temperatura, cafeína, medicamentos, hidratação, doenças e até o momento do dia podem modificar a frequência cardíaca.
Por isso, é mais interessante observar a tendência ao longo do tempo do que se preocupar com uma medida isolada.
Por que a corrida pode fazer o coração bater menos?
Imagine que o coração seja uma bomba responsável por enviar sangue para todo o corpo.
Cada vez que ele contrai, uma determinada quantidade de sangue é enviada para a circulação.
Com a prática regular de exercícios aeróbicos, como a corrida, o sistema cardiovascular passa por diferentes adaptações. Entre elas, o coração pode conseguir bombear uma quantidade maior de sangue a cada batimento.
Na prática, isso significa que, em repouso, ele pode precisar de menos batimentos para entregar ao organismo o sangue de que ele necessita.
Um exemplo bem simplificado:
Um coração pode precisar bater 70 vezes em um minuto para movimentar determinada quantidade de sangue.
Depois de adaptações promovidas pelo treinamento, ele pode conseguir realizar parte desse trabalho com 60 batimentos.
Não significa que o coração ficou “preguiçoso”.
Ele está trabalhando de outra maneira.
Não é apenas porque o coração ficou mais eficiente
Durante muito tempo, a explicação mais comum para a frequência cardíaca baixa dos corredores foi simplesmente:
“O coração ficou mais forte.”
Hoje sabemos que a história é mais interessante.
O treinamento de resistência também pode provocar mudanças na forma como o sistema nervoso controla o coração.
Uma parte desse controle é realizada pelo sistema nervoso parassimpático, associado aos momentos de repouso e recuperação. Em pessoas treinadas, esse controle pode favorecer uma frequência cardíaca menor quando o corpo não precisa realizar esforço.
Além disso, pesquisas mais recentes indicam que o treinamento prolongado pode provocar adaptações no próprio nó sinusal, estrutura que funciona como o marcapasso natural do coração. Ou seja, a frequência mais baixa observada em corredores parece resultar de uma combinação de adaptações cardiovasculares, autonômicas e do próprio sistema elétrico cardíaco.
Para quem corre, não é necessário decorar esses termos.
A ideia principal é simples:
seu organismo aprende a realizar o mesmo trabalho de repouso de maneira mais econômica.
Isso acontece apenas com corredores profissionais?
Não.
Embora a chamada bradicardia do atleta seja bastante conhecida entre pessoas que praticam esportes de resistência em alto volume, uma diminuição da frequência cardíaca de repouso também pode aparecer em pessoas recreacionalmente ativas.
Uma revisão publicada em 2025 destaca que essa adaptação não é exclusiva de atletas altamente treinados e também pode ocorrer em indivíduos fisicamente ativos com níveis menores de treinamento.
E aqui está uma mensagem importante para quem está começando:
Você não precisa chegar a 45 ou 50 batimentos por minuto para provar que sua corrida está funcionando.
Algumas pessoas apresentam uma queda grande.
Outras, pequena.
E outras praticamente não percebem diferença.
Genética, idade, volume de treinamento e características individuais também influenciam essa resposta. Um estudo publicado em Circulation em 2026, por exemplo, encontrou evidências de que tanto o condicionamento quanto fatores genéticos participam da frequência cardíaca mais baixa observada em atletas de resistência.
Não transforme seu batimento em mais uma comparação. Seu ritmo também conta.
Como acompanhar sua frequência cardíaca de repouso
Se você usa relógio ou pulseira esportiva, provavelmente já recebe essa informação automaticamente.
Mas vale observar alguns cuidados.
Para comparar os valores de maneira mais justa, tente olhar a frequência cardíaca sempre em condições semelhantes.
Uma boa referência é observar o valor:
Ao acordar.
Depois de uma noite habitual de sono.
Antes do café.
Antes de levantar e começar as atividades do dia.
Em vários dias, e não apenas em uma medição.
A American Heart Association também recomenda o período da manhã, antes de levantar da cama ou tomar café, como um bom momento para avaliar a frequência cardíaca de repouso.
Mais importante do que saber se hoje foram 58 ou 61 batimentos é perceber como esse número se comporta durante semanas e meses.
Frequência cardíaca mais baixa significa que estou mais condicionado?
Pode ser uma pista, mas não deve ser usada isoladamente.
Imagine duas pessoas.
Uma corre há seis meses e apresenta 52 batimentos por minuto.
Outra apresenta 65.
Não podemos concluir apenas com esses números que a primeira está “mais saudável” ou “mais treinada”.
A frequência cardíaca é influenciada por muitos fatores.
Além disso, condicionamento físico envolve muito mais coisas: capacidade cardiorrespiratória, força, recuperação, sono, disposição, histórico de saúde e resposta aos exercícios.
Até a própria American Heart Association orienta a não ficar excessivamente presa a um único número, porque existe uma ampla variação individual na frequência cardíaca normal.
E quando o batimento baixo merece atenção?
Uma frequência cardíaca abaixo de 60 batimentos por minuto recebe o nome de bradicardia.
Mas esse nome descreve o número e não significa automaticamente doença.
Ela pode acontecer durante o sono e também é frequente em pessoas fisicamente ativas.
O contexto é o que importa.
Vale procurar avaliação médica se uma frequência cardíaca muito baixa vier acompanhada de sintomas como:
Tontura.
Desmaio ou sensação de desmaio.
Fraqueza incomum.
Falta de ar fora do habitual.
Dor ou desconforto no peito.
Confusão.
Queda importante da tolerância ao exercício.
Sensação de batimento irregular.
Uma redução repentina e inexplicável da frequência cardíaca.
Também é importante lembrar que alguns medicamentos podem diminuir a frequência cardíaca.
Por isso, se algo mudou sem uma explicação clara ou existem sintomas associados, o ideal é não atribuir automaticamente tudo ao treinamento.
O que observar no próximo mês
Em vez de perseguir um número específico, experimente acompanhar tendências.
Observe:
Sua frequência cardíaca de repouso média.
Como ela muda após noites ruins de sono.
O que acontece nos dias seguintes a treinos mais pesados.
Como você se sente durante as corridas.
Se o mesmo ritmo começa a parecer mais confortável.
Como está sua recuperação.
Essas informações juntas dizem muito mais do que um único número no relógio.
E lembre-se: evolução não precisa aparecer como recorde.
Às vezes, ela aparece quando aquele percurso que deixava você ofegante começa a parecer mais tranquilo.
Quando você se recupera melhor.
Quando consegue conversar enquanto corre devagar.
Ou quando percebe que seu corpo está simplesmente se adaptando ao movimento.
Seu coração também aprende com a constância
A corrida não muda apenas suas pernas.
Quando praticada regularmente e dentro de uma rotina possível, ela estimula adaptações em todo o sistema cardiovascular.
Uma frequência cardíaca de repouso mais baixa pode ser uma dessas adaptações.
Mas não transforme isso em uma meta.
Você não precisa ter o menor batimento do grupo, correr todos os dias ou treinar como atleta para colher os benefícios do movimento.
Seu corpo precisa de tempo para se adaptar.
Constância vence intensidade.
Um km por vez. O importante é voltar.
Bora?
Referências
American Heart Association. Target Heart Rates Chart. Atualizado em 2024.
American Heart Association. All About Heart Rate (Pulse).
Zoladz JA et al. The slowing pulse: a history of research on training-induced resting bradycardia. 2025.
D’Ambrosio P et al. Bradycardia in Athletes: Prevalence, Mechanisms, and Risks. Circulation. 2026.
Curtiu? Compartilhe este post no seu perfil da comunidade Aurora.
Entrar para compartilharGostou? Tem mais te esperando no amanhecer.
Voltar ao blog